do lugar de mim

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009


. a partir dos olhos que amanhecem redesenho o mapa do horizonte e escolho a órbita do destino. como uma hipótese de riso no chão varrido da insónia.


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até…


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domingo, 27 de Setembro de 2009


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é sombria a passagem que une duas montanhas. como é insondável o destino dos diálogos que se estreitam. sabe-se sempre onde fica o auge. mas quase nunca se pressente a erosão. e não serão as palavras a selar caminhos intransitáveis. a precisão da distância que se mede por dentro é validada pelo silêncio que vem de fora.
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terça-feira, 22 de Setembro de 2009



agora
que os dias são o princípio da água
e os olhos uma aguarela nostálgica
respiro o silêncio farto da montanha
e mordo a erva como quem marca o coração.
deste lado da vida
que não é espelho nem nome de raiz
aponto os olhos à curvatura da noite
tombo-me com as folhas moribundas
e espero por ti com um sorriso brando
do outro lado do inverno.




sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

não temos de matar para não morrer. só temos de fingir viver. penso: não se recusa nenhum abismo sob pena de morrer antes da hora. e penso ainda: há um tempo para tudo. ou não.
ser só. por natureza. ainda que se desconheça esta neblina. a estranheza repentina de nós. traduzível em fragmentos e convulsões. as palavras já nasceram minadas. e a vida é pouca para aprender a encher com silêncios. daí a eminência de me calar.
os afectos tecem-se com fios de seda. nos batimentos da voz e do coração. nas mãos que se gastam a tecer. todos os outros laços são amarras que vincam e tropeçam a vida. de nós e de dobras. se existisse salvação o desprendimento era a salvação. ninguém trai por usar o próprio coração no encalço de um impulso. traição é outra coisa. traição é desnudar sem pudor um segredo que não nos pertence. este é o limite.
a mentira? se a mentira for o único método de preservar a intimidade será um recurso legitimo. ninguém tem autoridade para decretar a violação dos quartos interiores. nem mesmo o próprio.
as datas pesam nos dias e esmagam as horas. como rótulos inúteis que nos remetem para a memória e não nos devolvem a emoção. o tempo é um traço contínuo. e uma questão recorrente. porque não se decifra aqui. neste lugar redondo. onde existe a tentação de julgar que sabemos alguma coisa ou que aprendemos alguma coisa. andamos às voltas. a fingir que o caminho tem progresso.
quando escrevo não distingo a memória do sonho. a realidade do desejo. tudo é uno no meu tempo. nem sei porque escrevo se não tenho nada para dizer. faço-o como quem sacode um grão de areia do sapato. um gesto sonâmbulo. ninguém é apenas santo ou só demónio. ninguém é para sempre parte da mesma equação. todos os dias somos esboços. outros esboços.
não acredito no que vejo. só acredito no que sinto e enquanto sinto. não obstante os olhos. a minha inquietação está no ruído dos outros.
às vezes um calafrio percorre-me as veias. um relâmpago escurece tudo e ilumina o medo. acredito que a morte é semelhante a um calafrio. pelo menos o princípio da morte. de qualquer tipo de morte. mas pior do que a morte é alguém sentir pena de si próprio. vigio atentamente estes indícios malignos e não os deixo aproximar do nó fatal.
quando me é insuportável a ambivalência serve-me o alheamento. um lugar induzido. conveniente e defensivo. que desejo imparcial e plácido. uma espécie de adiamento. plataforma suspensa onde se ilude o tempo turvo. opto assim pelos lapsos. em instantes intermitentes de lucidez. quando vejo claramente que todas as partidas estão perdidas.
difícil é estar inteiro nos momentos desiguais e imprevisíveis. há momentos de fingir e momentos de acreditar. e há momentos de estar calado. de todos é este o mais produtivo. mas não sei qual é o mais verdadeiro. na vasta planície do silêncio o meu ofício é compreender e não julgar.
não conheço formas preconcebidas onde encaixar os conteúdos dispersos do pensamento. tudo é imediato. mutável. altamente degradável. tudo isto eu sei e já disse. por isso é inevitável haver momentos de fingimento. momentos de vazio. eu gosto dos dias vazios. de relógios parados. de pensar em tudo para depois reduzir a nada. porque as palavras não nos dizem. são engodos que nos abreviam levianamente. como nos espoliam das ilusões cujo tempo de vida é inversamente proporcional à experiência da pele.
por isso o meu silêncio é agora um lago quieto de outono. com margens suficientemente distantes para dissuadir a ilusão de pontes. e os dias são palcos iluminados. onde cortinas espessas nos tapam e destapam à medida do movimento da luz. assim representamos o esquecimento.
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quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

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não se regressa ao mesmo lugar pela mesma berma. o retorno é um caminho cheio de excessos e mãos vazias de os não saber segurar.

houvesse um mapa que assinalasse o limiar do abismo. um vento norte que desviasse a rota para o sul. um tempo do avesso que descontasse na memória. que ao gesto abrupto que arranca o coração ao peito só serviria a morte esculpida no branco mármore da ausência. precipício por precipício. a justa equivalência.

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